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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Jovens profissionais apostam na bioética - {ts '2006-04-24 00:00:00'}

Um casal se separa deixando vários embriões congelados em uma clínica de reprodução assistida. Qual dos cônjuges terá direito a eles? O pai morre em um acidente. O bebê, nascido de um óvulo fecundado artificialmente pouco antes da morte, será seu herdeiro? O genoma deve ser patenteado pelo cientista que o decodificou? O consumidor pode se defender contra alimentos geneticamente modificados? Na eutanásia, quem decide? Até que ponto as pesquisas para novos medicamentos podem envolver seres humanos?
Todas essas são questões ligadas a um ramo do conhecimento que vem ganhando cada vez mais espaço no mundo acadêmico, científico e empresarial: a bioética - o estudo da ética da vida. O bioeticista ajuda instituições como hospitais, laboratórios, clínicas, indústrias, familiares e pacientes a tomarem uma decisão difícil de forma consciente, esclarecendo todos os seus aspectos éticos. "É o facilitador sobre questões de valor que envolvem a vida", explica o padre Leo Pessini, coordenador do único mestrado (stricto sensu) em bioética do país, na Universidade São Camilo, que formará os primeiros mestres este ano.
Os estudos pioneiros sobre bioética surgiram nos anos 70, na Universidade de Wiscosin, nos Estados Unidos. Na Europa, eles se popularizaram na década de 80 e só nos anos 90 chegaram à Ásia e aos países em desenvolvimento. Os cientistas foram os primeiros a discutir sua utilização nos meios de pesquisa. Mas essa discussão não ficou restrita aos laboratórios de experimentação. Ao longo desses anos, muitos teólogos também se dedicaram ao assunto. Os recentes avanços tecnológicos em diversos campos da ciência e do meio-ambiente, entretanto, estão mudando o perfil de quem quer seguir carreira como bioeticista. 
Por seu caráter multidisciplinar, que engloba temas de áreas tão distintas como biossegurança e medicina, a bioética hoje atrai a atenção de profissionais com formações igualmente diversas. São administradores, engenheiros, médicos, advogados, jornalistas, biólogos, entre outros. Todos acreditam que esta será uma profissão de sucesso num futuro próximo, embora ainda não seja regulamentada no país.
No Brasil, os bioeticistas ainda são poucos. Existem cerca de 10 centros com programas de formação na área, enquanto nos EUA esse número chega a mais de 400. Na pós-graduação, por enquanto, só existe o curso da Universidade São Camilo. Nos hospitais brasileiros, os comitês de bioética ainda são raros.
Uma área onde os especialistas estão conseguindo oportunidades para atuar é nos comitês de ética em pesquisa.
Existem 450 espalhados pelo país, que envolvem a participação de 6 mil profissionais. Todos os comitês se reportam à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), criada em 1996 e ligada ao Ministério da Saúde. Dos 1500 projetos analisados pelo Conep no ano passado, 10% envolviam temas relacionados à genética, reprodução humana, novos medicamentos e biossegurança. "A aplicação da bioética é um passo à frente para o país, pois é um instrumento de controle social, representa a sociedade", diz William Saad Hossne, coordenador da comissão e uma das maiores autoridades em bioética do país. Ele foi o criador, em 1982, da Sociedade Brasileira de Bioética na Unesp de Botucatu, no estado de São Paulo. 
Os comitês, segundo Hossne, agregam profissionais com formações inusitadas. "Existem desde filósofos até juristas", dizOs participantes não recebem salário. "Para não haver conflito de interesses", explica. Isso não significa que não exista um bom espaço remunerado a ser ocupado pelos bioeticistas. A advogada Adriana Haas, 30 anos, está fazendo mestrado em bioética e pretende atuar como pesquisadora e professora. Ela vê outros caminhos, além dos que escolheu, a serem explorados pelos futuros especialistas da área.
"As clínicas de reprodução assistida são um exemplo", diz Adriana. Ela acredita no aumento da demanda por advogados especializados em bioética nesses negócios para ajudar a chegar a decisões em novos questionamentos. Como o que fazer com embriões congelados por mais de três anos que não foram retirados pelos responsáveis. "Isso representa um alto custo para elas", diz. A grande questão bioética nesse caso é se existe vida ou não nesses embriões e o que as clínicas teriam direito de fazer com eles.
A bioética, em breve, deve abrir campos de atuação em todas as áreas do direito. Na civil, na hora de determinar a sucessão e filiação relacionadas à reprodução artificial. Na âmbito ambiental, com a proliferação dos organismos geneticamente modificados, como os alimentos transgênicos. No direito do consumidor, o bioeticista poderá auxiliar o cidadão que quiser saber exatamente o que está consumindo. Até na área penal, deverão existir novas missões para os advogados no combate aos crimes genéticos. "Uma pessoa poderá roubar as características genéticas de outra se apoderando de um DNA decodificado", arrisca Adriana. Indo mais fundo na futurologia, ela lembra que o dia em que a clonagem humana for permitida, a Justiça terá muito para resolver. O clone legalmente será filho ou irmão do copiado?Por enquanto, a pergunta fica no ar.
Na medicina, as questões de cunho bioético são antigas. Desde o primeiro transplante de coração ocorrido em 1967, surgiram dúvidas sobre a definição de morte cerebral que ainda hoje são discutidas à exaustão, caso a caso. A eutanásia, cirurgias de risco durante a gravidez, aborto em pacientes com aids ou em estado de coma. Todos esses e inúmeros outros questionamentos podem ser analisados pelo viés bioético.
O médico psiquiatra Raul Marino Junior, desde que se formou nos anos 60, migrou para um braço polêmico das ciências médicas, a psicocirurgia. "É quando o tratamento requer intervenção no cérebro", explica. Para especializar-se, estudou nos EUA e no Canadá. Nessa busca por informação acabou se aproximando do estudo da bioética. Aos 69 anos, ele é um dos alunos mais experientes do mestrado da São Camilo. "Acho fundamental conhecer a validade da ética e da moral na medicina", diz. Atualmente, dirige o Instituto Neurológico da Beneficência Portuguesa em São Paulo e está escrevendo um livro sobre morte cerebral. "A bioética está se infiltrando em todos os ramos do conhecimento", diz.
Apesar da empregabilidade do bioeticista estar ligada mais ao futuro do que ao presente, muitos jovens abraçam a causa com a mesma paixão dos veteranos. O administrador de empresas, Walter da Silva Junior, 24 anos, encantou-se com o tema ao realizar um trabalho de iniciação científica no curso de administração na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Ao concluir o mestrado, ele pretende trocar a carreira de sete anos em uma consultoria empresarial, para tornar-se pesquisador e professor na área de bioética. "As discussões dos avanços científicos se tornam cada vez mais necessárias", diz. Ele destaca a biodiversidade. "Alguém com formação ética precisa avaliar a interferência do homem na natureza", diz. "Esse papel cabe ao bioeticista".
Fonte: Valor Econômico - 24/04/2006 -EU & Carreira
Por Stela Campos

Bioética: ■ substantivo feminino
Rubrica: biologia, ética.
Estudo dos problemas e implicações morais despertados pelas pesquisas científicas em biologia e medicina [A bioética abrange questões como a utilização de seres vivos em experimentos, a legitimidade moral do aborto ou da eutanásia, as implicações profundas da pesquisa e da prática no campo da genética etc].

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