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sábado, 26 de novembro de 2011

9 circulo Dantesco

Muito estimados amigos! Reunidos esta noite, propomo-nos a estudar o nono
círculo dantesco, com o propósito de aprofundar mais nesta questão.
Chegamos, através destas conferências, ao próprio centro da Terra, o qual é
de uma inércia espantosa, porque é próprio núcleo de nosso planeta.
Ao chegar a esta parte, Dante, em sua Divina Comédia, cita inusitadamente a
lança de Aquiles. Foi-nos dito que tal lança, se a princípio feria e ocasionava
danos ou amarguras, depois resultava numa verdadeira benção.
Isto vem a nos recordar claramente a lança de Longibus, com o qual o
centurião romano ferira o costado do Senhor.
Esta mesma lança empunhada por Parsifal, o herói maravilhoso da
dramaturgia wagneriana, veio sanar o costado de Anfortas.
Já em nossos passados textos falamos, de forma concreta, sobre esta arma
de Eros.
Então, dissemos que tal hasta é de tipo fálico, que, sabiamente manejada,
pode ser utilizada para a desintegração do eu pluralizado.
É muito notório o fato de que Dante mencionasse precisamente a lança de
Aquiles na nona esfera e isto é algo que nos deve fazer meditar.
Convém recordar que a lança santa é o próprio emblema do falo, onde radica
o princípio de toda a vida, a eletricidade sexual transcedente, com a qual
podemos desintegrar, reduzir a poeira cósmica o eu pluralizado.
Quero, nesta conferência, citar também o Santo Graal, aquela divina taça ou
cálice milagroso em que o Grande Kabir Jesus bebera na última ceia.
É claro que tal jóia é o símbolo vivo do útero ou yoni divinal do eterno
feminino.
Como entramos no tema da nona esfera, não poderíamos esquecer, nesta
conferência, de mencionar o cálice e a lança dos grandes mistérios arcaicos.
Na nona esfera são desintegradas definitivamente as criaturas
involucionantes. Que foi de Nemrod e sua torre de Babel? Que será dos
modernos fanáticos de tal torre? Em vão tentarão assaltar o céu com seus
foguetes; as viagens cósmicas não são permitidas aos animais intelectuais;
tentá-las é um sacrilégio. Tais viagens são exclusivas do homem autêntico,
legítimo e verdadeiro.
Depois da grande catástrofe que se avizinha, os velhacos intelectuais da torre
de Babel ingressarão nos mundos infernos, para serem reduzidos a poeira
cósmica na nona esfera.
Que foi de Efialto? Logrou comover os deuses encarnados da antiga
Atlântida. Não obstante, foi reduzido a pó no nono círculo dantesco.
Que foi de Briareu, o dos cem braços? Viva representação alegórica dos
senhores da face tenebrosa que outrora povoavam a submersa Atlântida.
No nono círculo infernal, ou de Netuno, foi dissolvido, convertendo-se em pó
da terra.
Nesta zona netuniana submersa são reduzidos a cinzas os traidores. Ai de
Bruto, Cássio e do Judas interior de cada vivente!
E que foi de ti, Alberigo de Manfredi, senhor de Faenza, de que serviram tuas
boas intenções e haveres ingressado na Ordem dos Irmãos Gozosos?
Bem sabem os divinos e os humanos o horroroso crime que cometeste. Não
foste acaso tu aquele que assassinou teus parentes em pleno festim?
Diz a lenda dos séculos que, fingindo reconciliar-te com eles, fizeste
assassiná-los em célebre banquete, precisamente ao final, no exato instante
em que se serviam as sobremesas.
Não obstante, continuaste vivendo! Assim parecia às pessoas. Mas, na
verdade ingressaste no nono círculo infernal no exato momento em que se
consumou o delito.
Quem ficou habitando teu corpo? Não foi acaso um demônio?
Ai dos traidores? Ai daqueles que cometem semelhantes crimes! Estes são
julgados de imediato pelos Tribunais de Justiça Objetiva e sentenciados à
morte. Os verdugos cósmicos executam a sentença e tais desditados
desencarnam de imediato, passando ao nono círculo dantesco, ainda que
seus corpos físicos não morram, pois sabido é que qualquer demônio,
substituindo o traidor, fica metido em seu corpo, com o fim de que não sejam
alterados os processos cármicos daquelas pessoas ou familiares que, de uma
ou outra forma, estejam relacionados com tais perversas personalidades.
Ainda que pareça incrível, atualmente perambulam pelas ruas das cidades
muitos mortos-vivos, cujos verdadeiros proprietários agora vivem nos
mundos infernos.
P. Venerável Mestre, se a Essência engarrafada no eu pluralizado é a que
transmigra aos mundos infernos, esta substituição de que o senhor fala
significa, acaso, que outra Essência toma o corpo do morto-vivo?
V.M. – Amigos, repito! Qualquer demônio pode substituir o ex-proprietário do
corpo. Pode dar-se também o caso que o demônio que fica dono da situação,
amo e senhor de tal veículo abandonado, seja um dos demônio menos
prejudiciais que formaram parte do ego precipitado no Averno.
Assim pois, os Juízes da Justiça Celestial condenam os delitos de alta traição
com a pena de morte.
P. – Mestre, que se entende por delito de alta traição?
V.M. – Amigos ! Existem muitos gêneros de traição, mas há alguns tão graves
que, de fato, são pagos com pena de morte.
Isso de convidar tal ou qual pessoa ou pessoas a um banquete e logo
assassiná-las no mesmo, alegando este ou aquele motivo, é um crime tão
grave que não se pode pagar de outra forma. Neste caso, o traidor
desencarna de imediato e seu corpo fica nas mãos de algum demônio.
É evidente que as pessoas de modo algum se dão conta do que sucedeu no
fundo da personalidade do traidor; porém, aos Juízes da Justiça Celestial o
que lhes interessa é que se cumpra a sentença e isto é tudo!
P. – Mestre, não entendi suficientemente o relacionado à Essência, pois não
compreendo que o demônio que substitua o ex-proprietário do corpo do
traidor tenha vida física carente de Essência.
V.M. – Amigos! Vem-me à memória aquele versinho que diz: "Mortos não
somente são aqueles que dormem na tumba fria; mortos são também aqueles
que têm a alma morta e ainda vivem todavia."
O demônio que substitui o dono de um corpo pode já não ter Essência de
nenhuma espécie e, com isto, fica esclarecida completamente minha
explicação. Estes são os casos dos desalmados, citados por H.P.B. em sua
Doutrina Secreta. Não sou o primeiro a mencionar este assunto, nem
tampouco o último; mas, sim, sou o primeiro a esclarecê-lo totalmente.
P. – Que nos diz o Mestre G. sobre o particular?
V.M. – O Mestre G. diz que há muitas pessoas nas ruas só com sua
personalidade; porém, carentes de Essência, quer dizer que andam vivos e,
não obstante, estão mortos.
P. – Venerável Mestre, quisera dar-me uma explicação acerca do que fala
anteriormente, relacionado com o verdugo cósmico?
V.M. – Vejo aqui, no auditório, um missionário gnóstico internacional que,
muito sinceramente, formulou a pergunta.
Os Tribunais da Justiça Objetiva (para diferenciá-los da justiça subjetiva
deste mundo vão em que vivemos) têm a seu serviço verdugos cósmicos.
Nestes momentos vêm-me à memória dois deles, muito famosos, que
trabalharam no antigo Egito dos faraós.
Esta classe de verdugos atua de acordo com a Grande Lei e estão mais além
do bem e do mal, tem poder sobre a vida e poder sobre a morte.
Recordo, com inteira claridade meridiana, algo insólito que me aconteceu em
minha presente existência. Depois de haver concluído todos os processos
esotéricos iniciáticos, fui submetido a muitíssimas provas; mas, havia uma na
qual falhava lamentavelmente. Quero referir-me, de forma enfática, ao
problema sexual.
Por aquela época, faz já muitíssimos anos, sucedia-me sempre o inevitável.
Falhava nos momentos decisivos e tragava as maças do jardim das
Hespérides. lamentavelmente.
No mundo físico guardava a mais absoluta castidade. O desastre sempre me
sucedia fora do corpo, nos mundos superiores. Na presença de muitas damas
inefáveis, fracassava.
Um e outra vez sucumbia nos processos impudicos de Gundrigia, Kundry,
Salomé, a Eva sedutora da mitologia hebraica.
O grave do caso é que, apesar de haver saído triunfante em todas as provas
esotéricas iniciáticas anteriores, vinham suceder-me esses fracassos
precisamente ao final da Montanha da Iniciação.
Meu caso era verdadeiramente lamentável e em todas essas cenas de tipo
erótico, sob a Árvore da Ciência do Bem e do Mal, não era eu dono de mim
mesmo. Um demônio metia-se-me na mente, adonava-se de meus sentidos,
controlava minha vontade e, assim, falhava desgraçadamente.
Eu sofria o indizível, a ferida de Anfortas sangrava em meu costado e o
remorso era espantoso.
Sucedeu-me que por fim, um dia, mortalmente ferido no fundo de minha
alma, clamei a minha Divina Mãe Kundalini, solicitando auxílio, e este não se
fez esperar...
Uma noite qualquer, minha Mãe adorável me tirou do corpo físico e me levou
ante os Tribunais da Justiça Objetiva.
Grande foi meu terror quando me vi na presença dos juízes no Tribunal do
Carma.
Muitas pessoas encheram a sala e havia pavor em todos os rostos e angústia
em todos os corações.
Avancei alguns passos na estância da verdade-justiça e o juiz abriu o livro e
leu: Crimes contra a deusa Lua, aventuras de Don Juan Tenorio, na época
dos trovadores medievais e dos cavaleiros andantes e das cidades feudais.
Logo, com voz tremenda, pronunciou a sentença de morte e ordenou ao
verdugo cósmico, de forma imperativa, que a executasse de imediato.
Ainda recordo o indizível terror destes instantes. Minhas pernas tremiam no
preciso momento em que o verdugo, desembainhando sua flamígera espada,
a dirigia ameaçadora contra minha indefesa pessoa.
Nesses segundos, que me pareceram séculos de tortura, passaram por
minha mente todos os sacrifício pela humanidade, minhas lutas pelo
Movimento Gnóstico, os livros que havia escrito, etc., etc., etc., e disse a mim
mesmo: E esta é a sorte que agora me aguarda! Tanto que sofri pela
humanidade! Este é o pagamento que os deuses me dão? Ai! Ai! Ai!
De repente sinto que em meu interior algo se move e se agita violentamente,
enquanto o verdugo dirigia a ponta de sua espada para mim...
Logo vejo, com assombro místico, um demônio luxurioso, terrivelmente
perverso, que, saindo de meu corpo pela espinha dorsal, toma a forma de um
cavalo que relincha...
O verdugo dirige, agora, sua espada para a besta maligna e esta mergulha de
cabeça para o fundo do negro precipício; suas patas e cauda ficam para cima
e, por último, o corpo inteiro daquela abominação espantosa penetra
totalmente sob a epiderme do globo planetário, para se perder nas entranhas
tenebrosas do Averno...
Assim foi, amigos meus, como fiquei livre daquele eu luxurioso que na Idade
Média criara, quando andava como Bodhisattwa caído, sobre régia
cavalgadura, nos empedrados caminhos que, de castelo em castelo, me
levaram pelas terras dos senhores feudais.
Já livres dessa abominação da natureza, senti-me ditoso. Não voltei a falhar
nas provas sexuais, fui dono de mim mesmo e pude prosseguir pela Senda
do Fio da Navalha.
Eis aqui, senhores e senhoras, o bem tão grande que a mim me fez o
verdugo cósmico...
Inquestionavelmente, esta classe de seres está mais além do bem e do mal e
são terrivelmente divinos.
De modo algum quero fazer demagogia; não pretendo, por isto, louvar, nem
remotamente, os verdugos infames da justiça subjetiva, da justiça terrenal,
dessa vã justiça que se compra e se vende. Estou-me referindo
exclusivamente a indivíduos sagrados da justiça objetiva, da justiça celestial e
isto é radicalmente diferente ...
P. – Mestre, no princípio de sua impressionante narração sobre os seres que
ingressam no nono círculo dantesco, refere-se aos atuais construtores da
torre de Babel e mencionava os homens de ciência que enviam foguetes ao
espaço. Quisera esclarecer-me de que são culpáveis estes sábios da ciência
moderna?
V.M. – Distinto cavalheiro! Com o maior gosto me apresso a responder a
pergunta. Velhos textos da sabedoria antiga dizem que os Titãs da submersa
Atlântida quiseram assaltar o Céu e foram precipitados ao Abismo.
Quero que vocês , senhores e senhoras, se dêem conta cabal que os sábios
do século XX não são os primeiros a lançar foguetes ao espaço, nem,
tampouco, os únicos terrícolas que puderam enviar astronautas à Lua.
Nemrod e seus sequazes, os fanáticos da torre de Babel, habitantes da
submersa Atlântida, criaram melhores foguetes, impulsionados por energia
nuclear, e enviaram homens à Lua.
Isto me consta a mim; eu o vi e disse dou testemunho, porque eu vivi na
Atlântida.
Ainda recordo um aeroporto do submerso continente... Muitas vezes, de um
restaurante vizinho, caravançará, ou pousada, vi muitas vezes partir essas
naves entre os gritos de entusiasmo das excitadas multidões... Em que ficou
tudo isto? Que foi dos Titãs? Agora só podemos achar pó no nono círculo
infernal.
Amigos, senhoras! Não esqueçam vocês que o espaço é infinitamente
sagrado e que, por conseguinte, a navegação interplanetária é controlada por
leis cósmicas muito severas.
O erro destes modernos sequazes da torre de Babel consiste, precisamente,
em sua auto-suficiência... Estes ignorantes ilustrados, estes sabichões
partem do princípio equivocado de que já são homens. Não se querem dar
conta de que ainda não chegaram a estatura de tais. São unicamente
homúnculos racionais, humanóides intelectivos.
Para ser homem, necessita-se haver-se dado ao luxo de criar, para seu uso
pessoal, um corpo astral, um corpo mental, um corpo causal.
Só aqueles que criaram tais veículos supra-sensíveis poderão encarnar
realmente seu Real Ser, que os colocaria, de fato, dentro do reino dos
homens.
Absurdo é, pois, que os animais racionais abandonem o zoológico (o planeta
Terra), para viajar através do espaço infinito.
É, pois, de saber que estes sabichões da torre de Babel serão fulminados
com o raio terrível da Justiça Cósmica e perecerão no nono círculo dantesco.
Vestido com o eidolon (corpo astral), passei horas inteiras nas entranhas da
Terra, no próprio centro de gravidade permanente, no núcleo de nosso
mundo.
É tal região terrivelmente densa, pois cada átomo da citada zona leva, em seu
ventre, 864 átomos do Sagrado Sol Absoluto.
Igual número de leis (864) controlam as infelizes criaturas que, em processo
de franca desintegração, se encontram nessa zona.
Caminhando por ali, vi uma pedra, sobre a qual havia uma cabeça
semelhante à humana. Esta se movia muito lentamente, repetindo
mecanicamente tudo aquilo que a mim ocorria dizer.
Tratava-se de alguém que já se havia mineralizado totalmente e que,
inquestionavelmente, se estava decompondo e desintegrando, para se
reduzir, por fim, a poeira cósmica.
Continuando meu caminho nas entranhas do mundo, senti de repente, sobre
meus ombros, como se um ente diabólico tivesse pousado sobre mim.
Sacudi-me com força e aquela criatura caiu, então, ao solo pouco mais
adiante.
Depois, prosseguindo pelo caminho solitário do tenebroso Tártaro, naquelas
espantosas profundezas onde o tempo é terrivelmente longo e tedioso , entrei
num quarto imundo, onde havia uma prostituta que se revolvia no leito de
Procusto, desintegrando-se lentamente.
Aquela rameira perdia dedos, braços, pernas, lentamente, pouco a pouco, e
copulava incessantemente com quanta larva se acercasse dela...
Sai dali, dessa horrível alcova, terrivelmente comovido... Por último, algo
insólito sucede; vejo um par de bruxas vestidas de negro que, flutuando
lentamente sobre o piso, se dirigem a uma cozinha...
Ali, essas harpias preparam suas beberagens, seus filtros, seus feitiços, para
causar dano a outros infelizes do tenebroso Tártaro...
O tempo vai passando e eu começo a me sentir enfastiado em tão grosseira
materialidade. Anelo, então, sair dela, subir à superfície da Terra, voltar a ver
a suave luz do dia...
Minha aspiração não é vã, prontamente sou auxiliado e meu Real Ser me tira
outra vez daqueles abismos, para contemplar novamente as formosas
montanhas, os profundos mares, a luz do Sol e as rutilantes estrelas.
Amigos, recordai a cidade de Dite, o nono círculo infernal. Aí exalam seu
derradeiro alento aqueles que involuíram no tempo.
Lúcifer-Prometeu, o Adversário, esse vil gusano que atravessa o coração do
mundo, teve o rosto mais belo, ainda que agora se ache encadeado à rocha
fatal da impotência.
Não pensemos em um Lúcifer dogmático, senão no Lúcifer interior de cada
qual, naquele reflexo do Logos que se encontra no fundo íntimo de toda
pessoa.
Diz-se que chora com seis olhos e este número convida à reflexão. 666 é o
número da Grande Rameira e, somando cada número entre si, teremos o
resultado 18. Continuando com novas adições chegaríamos à seguinte
síntese: 1 + 8 = 9, a nona esfera, o nono círculo dantesco.
Lúcifer é, pois, essa força revolucionária que se acha no fundo de nosso
sistema sexual e que, sabiamente manejada, pode transformar-nos em
deuses.
Aqueles que não sabem manejar a força luciférica, com quem os compararei?
Possivelmente, aos aprendizes de eletricidade ou aos incautos que, não
tendo tal profissão, ignorando o perigo, ousam brincar com cabos elétricos de
alta tensão. Indubitavelmente são fulminados e precipitados no Abismo.
O aspecto negativo de Lúcifer-Prometeu nos conduz ao fracasso
inevitavelmente e por isso se diz que ele é o Adversário que mora no coração
do mundo.
A antítese de Lúcifer, ou o aspecto superior do mesmo, é o Logos Solar, o
Cristo Cósmico.
Lúcifer é escada para baixar ao Averno e escada para subir. Compreensão é
indispensável; recordai que nosso lema-divisa é thelema (vontade).
É necessário aprender a distinguir o que é uma queda do que é uma descida.
Nós necessitamos baixar à nona esfera (o sexo), para fabricar os corpos
existenciais superiores do Ser e dissolver o ego.
No nono círculo está o poço do universo, o centro de gravidade planetária.
Não é demais recordar que, na nona esfera submersa, têm os órgãos
criadores da humana espécie sua plena representação.
Ninguém poderia subir sem haver tido, antes, a moléstia de baixar. A toda
exaltação antecede uma terrível e espantosa humilhação.
Baixar à nona esfera é indispensável. Uns o fazem em vida, por sua própria
vontade, espontaneamente e para sua auto-realização íntima; e outros, a
maioria, as multidões, fazem-no de forma inconsciente quando descem ao
abismo de perdição.
P. – Venerável Mestre, quisera que nos explicasse o porquê ao sexo também
se chama nona esfera. Acaso guarda relação com o centro da Terra?
V.M. – Amigos! É urgente compreender que nas dimensões superiores da
natureza, submersas sob a epiderme da Terra, existe, por lei de antíteses, um
nono círculo de glória, onde os Iniciados da Fraternidade Universal Branca
podem ver, de forma concreta, traçado o signo do infinito, o santo oito,
colocado este horizontalmente.
Aqueles que estudaram a cabala esotérica conhecem muito bem o significado
íntimo desta mágica figura.
O extremo superior de tal signo simboliza o cérebro, o extremo inferior
alegoriza o sexo e o centro desta magnífica figura é o atômico ponto onde
gravitam as nove regiões submersas.
Eis aí, pois, o cérebro, coração e sexo do gênio planetário. A luta é terrível;
cérebro contra sexo, sexo contra cérebro.
Quando o sexo vence o cérebro, quando fica sem controle algum, somos
precipitados de cabeça ao Abismo.
Quando o cérebro e o sexo se equilibram mutuamente, auto-realizamo-nos
intimamente.
Todas as criaturas que existem sobre a face da Terra foram criadas de
acordo com este santo símbolo do infinito. Agora vos explicareis, pois, por
que o sexo corresponde à nona esfera.
Nove meses permanece a criatura no ventre materno; nove idades esteve a
humanidade metida dentro do ventre da grande natureza, Rea, Cibele, etc.,
etc., etc. Com isto creio, muito seriamente, haver dado resposta à pergunta
do cavalheiro.
P. – Venerável Mestre! Queria saber como sai à luz do Sol a Essência, uma
vez que o ego foi reduzido a poeira cósmica neste nono círculo do centro de
nosso planeta.
V.M. – Voltemos agora, pois, à questões das dimensões infernais, ou
infradimensões da natureza, depois de haver falado sobre o signo do infinito e
as dimensões da natureza.
Depois de exalar o póstero alento nessa região onde se encontra o trono de
Dite, a Essência, o material psíquico, aquilo que temos de alma, fica livre,
sem ego; pois, como já dissemos, este último é reduzido a poeira cósmica.
Emancipa a Essência, assume uma formosíssima figura infantil, cheia de
radiante beleza. Este é o instante solene em que os devas da natureza
examinam a Essência liberada.
Depois de haverem eles comprovado, até a saciedade, que já não possui
nenhum elemento infra-humano, concedem-lhe bilhete de liberdade.
Quero dizer, com isto, que outorgam à alma a dita da liberação.
Instantes felizes são aqueles em que a alma do falecido penetra por certas
portas atômicas luminosas, que lhe permitem, de imediato, a saída à luz do
Sol.
Já livre a criatura sobre a epiderme de nosso mundo, reinicia uma nova
evolução. Então se converte em gnomo, ou pigmeu, do reino mineral;
prosseguirá, mais tarde, sua evolução, ascendendo pelas escalas vegetal e
animal, até reconquistar, em um longínquo dia, o estado de humanóide
intelectual que outrora foi perdido.

Vala dos maus conselheiros - Espírito de Ulisses
Alegra-te Florença pois és tão grande que até pelo inferno o teu nome se expande! Cinco eminentes florentinos encontrei naquele fosso, o que me fez sentir vergonha de ti.
Subimos pela escada de pedras que havia sido o caminho pelo qual havíamos descido. Ele ia na frente e me puxava rochedo acima, apoiando-se nas rachaduras, por onde o pé não podia avançar sem a mão.
A oitava vala resplandecia de chamas. Isto pude ver quando meus pés chegaram a um ponto onde o fundo já aparecia. As chamas não estavam imóveis. Elas se moviam continuamente como gente o que me levou a imaginar que mantinham em sua custódia um pecador. O meu guia, como sempre adivinhando meu pensamento, confirmou:
- Em cada fogo há um espírito que é torturado pelo fogo incessante.
- Ó mestre - perguntei -, isto que acabas de falar eu já tinha adivinhado, mas dize-me quem está naquele fogo duplo, com uma chama dividida em duas pontas?
- Naquela chama - respondeu - sofrem dura pena Ulisses e Diomedes. Naquela chama se arrependem de ter tramado o logro do cavalo de Tróia e o roubo do Paládio.
- Podem eles falar através do fogo? - perguntei.
- Sim - respondeu o mestre -, mas deixa que eu fale, pois, sendo gregos, podem te desprezar.
Chegou o fogo a um lugar propício e o mestre se aproximou, perguntando:
- Ó vós que são dois dentro de uma única chama, se mereci de vós o meu viver, se mereci de vós alguma fama, quando no mundo meus altos versos escrevi, não vos moveis, mas que um de vós me diga onde foi perdido, para morrer.
A ponta maior da chama logo cresceu e começou a se agitar, e, como se fosse uma língua ondulando, virou-se para nós e falou:
- Quando descobri que nada podia impedir minha ânsia de viajar e conhecer o mundo, nem ternura de filho ao velho pai, nem o amor da minha Penélope, decidi explorar o mar aberto e profundo, acompanhado de minha tripulação fiel. Passamos da Espanha e Marrocos, e continuamos além dos pilares que por Hércules foram fixados, sinalizando aos homens que daquele ponto não passassem. Navegamos em mar aberto por cinco meses, com a vela sempre à esquerda, até que vimos no horizonte uma enorme montanha. Mesmo distante, apagada e escura, nunca eu vira outra assim tão grande. Mas nossa alegria durou pouco e logo transformou-se em pranto. Da nova terra saiu um grande redemoinho que atingiu a nossa embarcação na popa. Três vezes o barco rodou até que na quarta fomos sepultados nas profundezas do oceano.

Espírito do Frade Guido de Montefeltro
A chama agora estava imóvel e quieta. Nada mais falou e já se afastava com a licença do poeta quando uma outra, que vinha logo atrás, chamou nossa atenção à sua ponta que liberava ruídos estranhos. A ponta começou a mover-se, como se fosse uma língua, até que ouvimos:
- Ó tu a quem dirijo a minha voz, que falavas há pouco em lombardo, dizendo: "Podes ir, não te peço mais nada", embora tenha eu demorado em chegar a ti, não te incomodes se eu falar contigo, pois vês que não incomoda a mim, que estou ardendo em chamas! Se tu acabas de cair do mundo, daquela doce terra latina, dize-me, está a Romanha em paz ou em guerra?
Eu ainda escutava a chama falar quando o mestre me cutucou e disse:
- Fala tu, pois este é latino!
E eu, que já estava preparado para lhe responder, comecei:
- Ó tu que te escondes nessa chama, no coração dos seus tiranos tua Romanha sempre esteve em guerra, mas quando eu a deixei, ela não estava envolvida em conflitos. Ravena está como há muitos anos e a águia de Polenta já estica suas asas sobre a Cérvia. O mastim novo de Verrucchio, assim como o velho, continuam a sugar o sangue de seu povo.
Falei-lhe ainda de Forli, Lamone, Santerno e outras cidades da Romanha. No final, lhe pedi:
- Agora peço que me conte quem és, para que eu possa estender, no mundo, a tua fama.
- Se eu acreditasse que eu estava falando com uma alma que iria voltar ao mundo, esta chama não mais se moveria, mas como nunca, deste abismo, alma alguma jamais escapou, sem medo de infâmia eu te respondo. Fui guerreiro e depois frade franciscano, acreditando que assim poderia corrigir os meus erros do passado. Arrependi-me dos meus pecados e confessei meus erros. Ai miserável! E bem teria valido se não fosse aquele príncipe dos novos fariseus que me pediu para ajudá-lo a destruir a fortaleza Perestrina. Para ele, não importava o cargo supremo que ocupava, nem os votos sagrados e nem o cordão que eu usava. Ele me pediu conselho, e eu calei. Mas depois falou de novo: "Não sejas desconfiado! Eu já te absolvo dos pecados que vieres a cometer. O céu eu posso fechar ou abrir, como tu sabes, pois são duas as chaves que meu antecessor não soube guardar." Eu, convencido pelos seus argumentos, aceitei, e disse: "Padre, desde que me absolvas do pecado que estou prestes a cometer, te aconselharei: Prometa a eles, anistia. Depois, quando obedecerem, volte atrás e não cumpra a promessa! Se assim fizeres, triunfarás!" No momento da minha morte, São Francisco veio buscar minha alma, mas antes que ele pudesse me levar um querubim negro se antecipou e, utilizando argumentos lógicos, demonstrou que eu deveria ir para o inferno: "Para baixo ele virá comigo, pois deu conselho fraudulento. Não se pode absolver o impenitente, nem pode o arrependido ainda querer pecar, pois assim nada vale seu arrependimento." Coitado de mim. Quando ele me tomou ainda falou: "Nem imaginavas que eu pudesse argumentar tão bem, não foi?" O demônio me levou até Minós, que se enrolou no rabo oito vezes e, de tanta raiva ainda o mordeu, me enviando a esta oitava vala para ser prisioneiro do fogo eterno.
Depois que concluiu o seu relato, a chama calou-se e se afastou, torcendo e debatendo o corno agudo. Eu e o mestre dali partimos, subindo pela escarpada para o arco seguinte, que atravessa o fosso onde pagam suas penas aqueles que as ganharam desunindo.

 
Vala dos separatistas
Espíritos de Maomé e Bertran de Born
Quem poderia, mesmo fazendo uso da melhor prosa, narrar as cenas de sangue e das feridas, que eu vi naquele triste lugar? Todas as línguas, por certo, estariam falidas, pois nossa memória e nosso vocabulário não são suficientes para compreender tamanha dor. Nem nos campos de batalha das piores guerras se viu tantos corpos estraçalhados, com deformações e feridas tão terríveis, quanto os que povoavam aquela nona vala.
Próximo a nós estava um condenado com as entranhas à vista, rasgado do nariz à garganta e com os intestinos pendurados entre as pernas. Eu o olhava, hesitante, quando ele, me olhando de volta, rasgou o peito com as mãos dizendo:
- Vês, tu, como eu me maltrato? Vês como Maomé e Ali estão desfeitos, gemendo, e todos esses semeadores de discórdias e heresias? Todos aqui são continuamente rasgados, cruelmente, por um diabo que aqui nos tortura eternamente. Em vão saram as feridas, pois logo ele volta e nos dilacera outra vez! - depois me perguntou - E tu, quem és, tentando retardar a tua pena aí sobre a ponte?
- Nem morte ainda o alcançou, nem culpa ordena que ele sofra aqui - respondeu Virgílio -, mas para que ele possa ter esta experiência, eu, que estou morto, devo guiá-lo por todo este inferno de giro em giro. Isto é tão verdadeiro como a minha presença aqui.
Quando ouviram essas palavras, mais de cem almas se aproximaram para me ver, quase esquecendo por um momento o seu intenso sofrimento.
- Diga ao Frei Dolcino - falou Maomé - que ele se abasteça de mantimentos e não saia do seu refúgio nas montanhas, se ele não tiver pressa em me encontrar. Se não tomar esses cuidados, o bispo de Novarra certamente o vencerá!
Depois de falar, Maomé se levantou e saiu. Veio então outro que tinha a garganta furada, o nariz totalmente decepado e apenas uma orelha inteira. Ele se separou do grupo e abriu sua goela vermelha, que falou:
- Ó tu que vi na sua terra latina, lembra-te de Pier de Medicina quando voltares, e avisa a Guido e Angiolello que, se nossa visão é certa, eles serão arrancados do seu barco e afogados perto de Cattólica, por traição de um tirano cruel. Aquele traidor, que só vê por um olho, reina sobre uma cidade que alguém aqui deseja nunca ter visto.
- Quem é aquele que nunca deseja ter visto a cidade onde reina o tirano? - perguntei.
- É este aqui. Mas ele não fala nada! - disse Pier, mostrando um companheiro calado e assustado, cuja boca ele abriu com a mão. - Este homem, no exílio, acabou com as dúvidas de César quando lhe disse: "O homem preparado, quando hesita, perde."
Oh, como ele parecia assustado, com a língua presa na garganta, Cúrio, que antes fora tão grande orador.
Um outro, com ambas mãos truncadas, levantou os cotos no ar, espalhando sangue sobre seu rosto, e gritou:
- Recorda o pobre Mosca, que disse "o que está feito, está feito" que para os toscanos foi semente tosca!
- E para a tua casta será a morte! - respondi-lhe, irritado, e ele, com mais essa ferida, retirou-se.
Continuei a observar a multidão quando vi um corpo que caminhava sem cabeça. Ele segurava sua cabeça pelos cabelos, balançando-a como lanterna. Quando chegou junto da ponte, ergueu alto o braço que a segurava, para que sua fala pudéssemos ouvir melhor:
- Sou Bertran de Bórnio - gritou -, e sofro esta pena monstruosa por ter instigado o jovem rei contra seu pai. Eu pus o pai contra o filho e por ter separado aqueles antes tão unidos, tive o meu cérebro separado do meu tronco. E assim, em mim tu vês, o perfeito contrapasso.
Bertran de Born, condenado a ter a cabeça separada do corpo para sempre, por ter causado a separação de pai e filho. Ilustração de Gustave Doré (séc XIX).

 
Vala dos falsários - Alquimistas
Tanta gente ferida e sofrendo deixaram meus olhos inundados de lágrimas. Virgílio notou e me perguntou:
- O que procuras? Por que olhas tanto para essa gente? Nos outros fossos isto não aconteceu. Se quiseres contar todos, lembra-te que o vale se estende por 22 milhas e a lua já se encontra aos nossos pés. Vamos andando porque o tempo é curto e há muito mais para ver adiante.
- Se soubesses o que eu estava procurando, talvez tivesses deixado eu permanecer por mais tempo. - falei e continuei a seguir o mestre, que não parou para me ouvir. Acrescentei - Dentro daquela vala, onde eu mantinha o olhar, acredito que esteja um espírito da minha família, a chorar pela sua culpa aqui punida.
- Não tenhas tal preocupação com ele pois ela não é recíproca. - respondeu o mestre. - Quando estávamos lá ao pé da ponte pude vê-lo te ameaçar com o dedo erguido e prestei atenção quando falaram seu nome: "Geri del Bello". Tu não ouviste porque estavas demais entretido com a cabeça falante de Bertran de Born.
- Ó mestre meu, a violenta morte que não lhe foi vingada - disse eu -, o deixou indignado, acredito, e foi essa a razão pela qual se escondeu sem querer falar comigo. É por isso que sinto pena e tristeza por ele.
Continuamos a conversar até chegarmos a um ponto, desde a ponte, onde já era possível avistar o vale inteiro. Só o vale. Dentro dele não se via nada por causa da escuridão. Quando finalmente estávamos no meio da ponte que atravessa este último claustro do Malebolge pudemos vê-lo por completo, e ouvir gritos tão terríveis que me levaram a cobrir os ouvidos. Amontoados naquela vala estavam centenas de doentes, com seus membros apodrecendo como leprosos. O ar estava dominado por um cheiro forte de carne podre.
Descemos por uma via à esquerda da saída da ponte até chegar a um ponto onde se tinha uma visão mais nítida daquele poço, onde são punidos os falsários. A visão era terrível. Por todo o vale se estendiam montes de espíritos empilhados, tão cansados que mal se moviam. Uns se estiravam, de bruços ou de costas, sobre os corpos dos outros. Outros se arrastavam, lentamente, com dificuldade. Passo a passo andávamos sem dizer uma palavra, vendo aquelas almas doentes, incapazes de levantar seus corpos deformados. Vimos dois pecadores sentados, um de costas para o outro, com os corpos totalmente cobertos de sarnas. Eles se coçavam freneticamente, afundando suas unhas na pele e tentando, em vão, atenuar a coceira que nunca cessava.
- Tu que arrancas tua pele com as unhas - dirigiu-se Virgílio a uma das almas - dize-me se existe algum latino aqui presente, para que tuas unhas possam servir a esse teu trabalho eternamente.
- Latinos somos nós que tu vês aqui, desfigurados. - respondeu um deles chorando - Mas quem és tu e por que nos perguntas?
- Sou o guia deste ser vivente - respondeu o mestre - e aqui desci com a intenção de mostrar-lhe todo o inferno.
Com a explicação, ambos viraram-se, lentamente, na minha direção. O mesmo fizeram outros, mais distantes, que ouviram essas palavras. O mestre então pediu que eu fizesse as perguntas que desejasse.
- Para que a memória de vós não desapareça das mentes dos homens no mundo primeiro - falei -, dizei-me quem sois e de onde viestes.
- Eu fui alquimista de Arezzo e este aqui é Alberto, que me condenou à fogueira. Eu lhe disse brincando que eu sabia levitar e ele, insatisfeito por eu não tê-lo transformado em um Dédalo, reclamou ao seu protetor, que me mandou queimar. Mas não foi por isto que estou aqui. Por ter no mundo usado a alquimia, Minós não se enganou e me colocou aqui, entre os falsários.
Eu comentava com o mestre sobre a ingenuidade do povo de Siena quando outro, que me ouvira falar, se aproximou e disse:
- Se achas mesmo isto do sienenses, então olha pra mim. Eu sou Capocchio, que falsificava metais e moedas. Deves lembrar-te de mim e saber que eu não era nada ingênuo pois falsificava muito bem.

Falsificadores - Impostores - Perjuros
Espírito do Mestre Adamo
Nem entre os loucos mais insanos se viu fúria e crueldade como aquela que se apossou de duas sombras pálidas, nuas, que se perseguiam pelo vale escuro como porcos soltos nas pocilgas. Uma delas afundou os dentes no pescoço de Capocchio e saiu arrastando-o para longe, esfolando seu ventre no chão áspero.
Ficou o alquimista de Arezzo, tremendo, que me disse:
- Aquele louco é Gianni Schicchi. Ele vive sempre assim raivoso e nos maltrata o tempo todo.
- Oh! - disse-lhe - Tomara que aquele outro não te morda também, mas, antes que ele se vá, dize-me quem é.
- Aquela é Mirra - disse -, a princesa depravada, que se tornou amante do seu próprio pai se passando por outra e assim enganou o rei. Da mesma maneira agiu Gianni, que se fez passar por Buoso Donati no seu leito de morte, falsificando o testamento em seu favor.
Depois que se foram os dois loucos raivosos, dos quais não desgrudei o olhar, voltei a minha atenção às outras almas. Vi então um deformado que parecia um violão. Seu corpo estava inchado por uma hidropisia tão grave que ele não conseguia se mover. A sua boca permanecia sempre aberta pois não conseguia fechá-la. Um lábio se recolhia para cima e o outro pendia, solto e pesado. Ao perceber que eu o olhava, ele falou:
- Ó vós que, não sei por que, não sofrem flagelo algum, vede aqui a miséria do mestre Adamo. Em vida, tive tudo o que quis e agora, eu faço qualquer coisa por uma gota d'água. A imagem das fontes e rios que descendem ao Arno me assombra eternamente e isto mais me castiga que o mal que resseca o meu rosto descarnado. Fui eu quem falsificou a moeda cunhada com o Batista e por isto fui torrado na fogueira. O que eu mais queria era encontrar por aqui as almas malditas de Guido, Alessandro e seu irmão. Foram eles que me incentivaram a cunhar o florim com três quilates a menos. Dizem os raivosos que um dos malditos já chegou. Se eu fosse ligeiro o suficiente para me mover pelo menos uma polegada a cada cem anos eu já teria começado a procurá-lo, mesmo sabendo que é preciso percorrer 11 milhas para dar uma volta completa nesta vala, que pelo menos meia milha tem de largura.
- Quem são essas almas que fumegam ao teu lado? - perguntei.
- Elas já estavam aqui quando eu cheguei - respondeu - e, desde então, nunca se moveram. Ela é a falsa que acusou José. Este outro é o falso Sinón, o grego que mentiu em Tróia. Este fedor exalam por causa de sua febre aguda.
Sinón, talvez ofendido pelas palavras de Adamo, juntou as forças, levantou-se e o golpeou. O mestre Adamo retaliou imediatamente atingindo-lhe o rosto com o braço, e disse:
- Embora eu não possa caminhar por este vale, minha mão é livre para o que for preciso.
- Mas ela não estava tão livre quando tu seguias para a fogueira, estava? - respondeu irado o outro - Mas a tinhas muito bem quando cunhavas!
- Agora dizes a verdade, mas não fostes tão verdadeiro em Tróia! - respondeu Adamo.
- Minhas palavras foram falsas, assim como as moedas que fizestes! - gritou Sinón.
E assim os dois começaram uma interminável discussão, e eu permaneci, parado, absorvido pela briga, até que o mestre gritou, irritado:
- Vai, continua olhando! Mais um pouco e eu perco a paciência!
Fiquei tão envergonhado com a repreensão que mal consegui pedir desculpas. O mestre percebeu, e me disse:
- Menos vergonha que essa tua já seria suficiente para lavar falta maior. Deixa para lá, esquece! Mas lembra, se outra vez estiveres exposto a tais situações, cuides de procurar o meu apoio. Querer ouvir tais rixas é gostar de baixaria.

Gigantes - Nemrod - Efialte - Anteu
Dando as costas àquele vale miserável, escalamos o rochedo e chegamos à última beira, que atravessamos em silêncio. A escuridão era imensa e meus olhos podiam ver muito pouco, quando ouvi uma trombeta soar tão forte que parecia o som de um trovão. O estrondo me fez voltar o olhar para o horizonte onde percebi o que pareciam ser torres de uma cidade.
- Mestre - perguntei a Virgílio -, que cidade é aquela?
- A escuridão o impede de ver o que realmente são essas torres. - respondeu - Não é uma cidade. O que vês são as silhuetas de gigantes que estão dentro do poço e, por serem tão altos, parte do seu corpo desponta além do nível deste círculo.
Dito isto, continuamos a caminhar na direção das "torres". À medida em que nos aproximávamos da beira do poço, a neblina se tornava menos densa e os gigantes começavam a tomar forma, aparecendo à minha vista ao mesmo tempo em que o meu medo crescia. Finalmente pude distinguir um dos rostos, os ombros, os braços, o peito e boa parte do ventre de um deles. O rosto, acredito, era tão largo quando a cúpula de São Pedro em Roma, e em igual proporção era todo o resto de seu corpo.
- Raphael may amech zabi almi - gritou o gigante.
- Ó alma tola - respondeu Virgílio - fica com essa tua trompa, que está presa a teu peito, e faze uso dela para descarregar tua raiva! - e depois voltou-se para mim - Ele mesmo se acusa. Ele é Nemrod, o construtor da torre de Babel. Para ele, língua alguma faz sentido, portanto vamos deixá-lo pois é perda de tempo tentar falar com ele.
Deixamos Nemrod e viramos à esquerda, prosseguindo pela beirada, até encontrarmos mais adiante outro gigante acorrentado. Sua mão esquerda estava atada na frente, sua mão direita estava presa atrás e uma enorme corrente o apertava, dando cinco voltas do pescoço até a cintura, até onde eu pude ver.
- Ele quis provar que era melhor que Jove - disse-me o mestre - e aqui tem a sua recompensa. É Efialte, cujos braços que antes moveu contra os deuses agora permanecem imóveis.
- Se for possível - disse eu -, gostaria de conhecer o descomunal Briareu.
- Não muito longe daqui - disse o mestre -, tu verás Anteu, que está solto e falante. Será ele que irá nos levar até o fundo. Aquele que queres ver está muito longe. Ele também está amarrado e se parece muito com este aqui, embora tenha uma aparência mais assustadora.
De repente Efialte se sacudiu de uma forma como nunca vi torre alguma tremer, nem nos piores terremotos. Eu teria morrido do susto se eu não tivesse antes visto a corrente que o prendia, e que me dava confiança.
Continuamos pelo nosso caminho até pararmos diante do gigante Anteu. Meu mestre elogiou seus feitos e depois pediu com cortesia:
- Anteu, este que está comigo pode espalhar tua fama pelo mundo, pois ainda vive. Para que ele não precise recorrer a Tifeu ou a Tício, te peço que nos leve lá para baixo, onde o frio do Cócito congela.
Assim falou o mestre e o gigante estendeu as mãos para que nelas subíssemos. Virgílio subiu primeiro. Quando já estava seguramente apoiado na mão de Anteu ele me chamou e me suspendeu. Assim que o gigante se inclinou eu me senti como se estivesse em uma torre que estava prestes a desabar. Mas o medo durou pouco. Cuidadoso, Anteu nos deixou no fundo daquele poço gelado. Depois que estávamos seguros sobre o chão, ele se levantou e se foi.
Anteu ajuda Dante e Virgílio na descida ao nono círculo (Lago Cócito). Ilustração de Gustave Doré (séc XIX).

 
Lago Cócito - Caína - Antenora - Espírito de Bocca
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Mapa do nono círculo (Cócito). Ilustração de Helder da Rocha
Chegamos ao fundo do Universo depois de descer um pouco mais, abaixo do ponto onde o gigante havia nos deixado. Eu ainda olhava admirado para o altíssimo muro, quando ouvi meu mestre falar:
- Olha para baixo e toma cuidado para não pisar nas cabeças dos pobres sofredores.
E então eu olhei em volta e vi sob os meus pés um lago gelado. O chão era tão duro e liso que parecia vidro. As almas estavam submersas no gelo com apenas o tronco e a cabeça de fora. Todos mantinham seus rostos voltados para baixo e batiam os queixos de frio.
Depois de muito olhar para aquela multidão, vi aos meus pés, duas almas tão juntas que até seus cabelos tinham se entrelaçado.
- Dizei-me vós que assim juntam os peitos - pedi - Dizei-me quem sois?
Quando me ouviram os dois olharam para mim e começaram a chorar. Suas lágrimas logo congelaram, unindo mais firmemente um ao outro. Irritaram-se por causa disso e, tomados pela raiva, se agitaram e ficaram violentamente a bater cabeças.
Antes que eu voltasse a interrogá-los, um outro espírito que perdera as duas orelhas congeladas pelo frio falou:
- Por que tanto nos olhas? Esses aí são dois irmãos, filhos de Alberto, donos do vale onde flui o rio Bisenzo. Se procurares em toda a Caína não encontrarás almas mais merecedoras deste tormento que esses dois, nem aquele que teve seu peito e sombra perfurados por um só golpe da lança de Artur, nem Focaccia e nem este, cuja cabeça me encobre a visão. Ele é Sassol Mascheroni e se és toscano, deves saber quem ele foi. Eu fui Camicione dei Pazzi e espero aqui pela chegada de Carlino, meu parente, cuja pena fará a minha parecer bem menos grave.
Almas traidoras submersas no Lago Cócito (Antenora). Ilustração de Gustave Doré (séc XIX).
Adiante vi mil faces, roxas de frio, que ainda hoje me fazem tremer ao lembrar. Continuamos, seguindo adiante na direção do centro. No caminho, não sei se por destino ou fortuna, ao passar distraído pelas cabeças, acabei atingindo uma delas fortemente no rosto com o meu pé.
- Por que me atropelas? - gritou a alma em pranto. - Se não vens para acrescer à vingança de Montaperti, porque me molestas?
Voltei-me ao mestre e solicitei que parássemos pois eu suspeitava que conhecia aquela alma desgraçada, que ainda gritava e nos insultava. Virgílio parou e eu fui até ela.
- Quem és tu que assim insultas os outros? - perguntei.
- E tu? Quem és tu que vais pela Antenora chutando os outros na cara como se fosses vivo? - perguntou-me a alma.
- Vivo eu sou! - respondi -, e poderei servi-lo na busca de tua fama, se eu puder acrescentar teu nome às minhas notas.
- Essa é a última coisa que eu desejaria! - respondeu - Vai-te embora daqui, vai! Não é assim que se consegue as coisas nesta lama.
Com isto eu agarrei o desgraçado pelos cabelos e disse:
- É bom que digas logo o teu nome, ou não te sobrará um fio de cabelo sequer!
- Não! - o espírito respondeu - Eu não digo de jeito nenhum! Tu podes arrancar todos os meus cabelos, podes me pelar mil vezes se quiseres mas nunca, nunca ouvirás de mim o meu nome.
Eu já tinha arrancado um feixe dos seus cabelos quando um outro gritou:
- O que é que tu tens Bocca? Já não basta agüentar o ruído do teu queixo que bate sem parar? Por que não te calas?
- Ora, ora - disse eu - não é preciso mais que fales, maldito traidor. Bem que eu desconfiei. Não te preocupes que eu levarei ao mundo a verdade sobre ti.
- Vai embora - respondeu - e conta o que quiseres! Mas se saíres daqui, não deixes de falar também desse traidor aí que me delatou. Ele é Buoso de Duera que aqui paga pela prata dos franceses. Se te perguntarem quem mais havia neste poço, este que vês aí do teu lado é o Beccheria. E, se procurares um pouco, aqui também encontrarás Gianni de' Soldanieri junto com Ganellone e Tebaldello.
Pouco depois que deixamos Bocca vi dois espíritos congelados juntos num mesmo fosso. Um deles mordia a nuca do outro ferozmente como se estivesse faminto.
- Ó tu que mostras com cada mordida o ódio que sentes por essa cabeça que devoras, dize-me - pedi -, dize-me a razão pela qual ages assim. Se a tua razão for justa, sabendo quem sois vós e o pecado desse outro, prometo que no mundo acima retribuirei tua confiança, ou que minha língua fique seca para sempre.


Espírito do Conde Ugolino - Ptoloméia
Espírito do Frei Alberigo
O pecador virou-se, afastou a boca daquela terrível refeição, limpou seus lábios nos cabelos do crânio que devorava, e falou:
- Queres que eu me recorde de um terrível pesadelo. Mas, se o que eu disser puder trazer uma infâmia maior a este traidor de quem arranco as peles, tu ouvirás o meu relato e o meu pranto. - e prosseguiu - Eu não sei o teu nome, nem de onde és, mas pareces florentino. Tu deves saber que eu fui o conde Ugolino, e que este outro é o arcebispo Ruggieri. Por causa de sua perversa astúcia, por confiar neste desgraçado eu fui traído, detido e morto, como vês. Mas antes saibas da forma cruel como fui morto para que possas julgar-me. Se o pensamento do que agora vou dizer não te tocar o coração, como tu és cruel! E, se não chorares, será que alguma vez choras? Eu fui preso com meus quatro filhos em uma cela para morrer de fome. Todos os dias meus filhos choramingavam e me pediam pão, e o pão nunca chegava. Eu ouvi o portão da torre lá embaixo ser lacrado com pregos e então olhei para as faces dos meus, e não lhes disse nada. Eu não chorei. Me transformei em pedra por dentro. Eles choravam e meu pequeno Anselminho falou "O que tens, meu pai, o que é que há?" Não respondi e nem uma só lágrima caiu durante todo o dia, nem durante toda a noite seguinte. Quando um raio de sol clareou aquele cárcere doloroso por um instante, me vi refletido nos quatro rostos, e mordi minhas mãos de desespero. E eles, pensando que eu mordia minhas mãos de fome, me disseram: "Pai, nós sofreremos menos se comeres de nós. Tu nos vestisse com estas míseras carnes e tu podes tomá-las de volta!" Fiquei quieto para não me tornar mais triste. Durante esse dia, e o outro, ninguém falou nada. No quarto dia, Gaddo lamentou aos meus pés "Pai meu, por que não me ajudas?" e depois morreu. Depois eu os vi morrendo um a um, do quinto ao sexto dia, os outros três. Por mais dois dias, já cego, chorei sobre seus corpos mortos, até que no oitavo dia a morte me levou.
Quando terminou de falar, virou seu rosto para a sua vítima e voltou a atacar aquele crânio com os dentes, como um cão que não solta o seu osso. Ai Pisa, que vergonha és para a nossa Itália! Se o conde Ugolino era culpado de ter traído um dos castelos teus, nada justificava que seus filhos fossem torturados.
Seguimos adiante até o lugar onde o gelo maltrata de forma mais dura os pecadores. Com os rostos virados para cima, nem nos olhos a sua angustia encontra alívio, pois lá se forma uma barreira de gelo no primeiro choro, quando as lágrimas congelam e preenchem toda a cava do olho.
Embora o frio tivesse afastado toda a sensação do meu rosto, comecei a sentir uma leve brisa e perguntei ao mestre:
- Mestre, que vento é este? Pensei que vento algum poderia chegar a estas profundidades.
- Logo saberás - respondeu Virgílio - pois teus próprios olhos te darão a resposta.
Enquanto conversávamos, um dos desgraçados submersos no gelo nos ouviu e gritou:
- Ó réus tão cruéis que para vós foi imposta a pior das penas, tirai este gelo de meus olhos, e me livrai da dor que impregna meu coração, até que novas lágrimas selem meus olhos outra vez.
- Eu prometo te ajudar, mas diga primeiro quem és. - falei. - Se eu não cumprir o que prometi, que possa eu então chegar ao fundo desta geleira.
- Sou frei Alberigo. - disse o espírito. - aquele das frutas do mau horto, e aqui recebo tâmara por figo.
- Oh! - exclamei. - Então tu já estás morto?
- Pode até ser que meu corpo ainda esteja lá em cima, - respondeu - mas nenhuma ligação tenho mais com ele. Quando uma alma comete traição tão estúpida quanto a minha, o seu corpo lá na Terra é imediatamente possuído por um demônio que o governa até que chegue o seu dia. A alma que antes habitava o corpo cai aqui na Ptoloméia. Mas tu que chegas agora deves também conhecer esse aí do lado. Ele é ser Branca d'Oria e está aqui neste gelo há muito mais tempo do que eu.
- Creio que me enganas - disse eu -, pois que eu saiba, Branca d'Oria ainda vive. Ele come e bebe, dorme e veste roupas!
- É ele sim! - insistiu o frei Alberigo - Antes de Michel Zanche, sua vítima, chegar ao fosso guardado pelos Malebranche, ele já congelava neste lago. O seu corpo foi, na ocasião, recebido por um diabo, que provavelmente ainda o possui. Mas já falei o suficiente. Estende logo tua mão e livra-me os olhos!
Ele pediu, mas eu não obedeci. E foi cortesia minha ser-lhe vilão.
Ah genoveses! Vós que sois avessos a toda lei e adeptos da corrupção; por que o mundo não se livra de uma vez de vossa gente? Pois, fazendo companhia ao pior espírito da Romanha, vi um dos vossos, cujas obras eram tais que sua alma já congela no Cócito, mas seu corpo parece vivo e ainda caminha entre vós.


Espírito do Conde Ugolino - Ptoloméia
Espírito do Frei Alberigo
O pecador virou-se, afastou a boca daquela terrível refeição, limpou seus lábios nos cabelos do crânio que devorava, e falou:
- Queres que eu me recorde de um terrível pesadelo. Mas, se o que eu disser puder trazer uma infâmia maior a este traidor de quem arranco as peles, tu ouvirás o meu relato e o meu pranto. - e prosseguiu - Eu não sei o teu nome, nem de onde és, mas pareces florentino. Tu deves saber que eu fui o conde Ugolino, e que este outro é o arcebispo Ruggieri. Por causa de sua perversa astúcia, por confiar neste desgraçado eu fui traído, detido e morto, como vês. Mas antes saibas da forma cruel como fui morto para que possas julgar-me. Se o pensamento do que agora vou dizer não te tocar o coração, como tu és cruel! E, se não chorares, será que alguma vez choras? Eu fui preso com meus quatro filhos em uma cela para morrer de fome. Todos os dias meus filhos choramingavam e me pediam pão, e o pão nunca chegava. Eu ouvi o portão da torre lá embaixo ser lacrado com pregos e então olhei para as faces dos meus, e não lhes disse nada. Eu não chorei. Me transformei em pedra por dentro. Eles choravam e meu pequeno Anselminho falou "O que tens, meu pai, o que é que há?" Não respondi e nem uma só lágrima caiu durante todo o dia, nem durante toda a noite seguinte. Quando um raio de sol clareou aquele cárcere doloroso por um instante, me vi refletido nos quatro rostos, e mordi minhas mãos de desespero. E eles, pensando que eu mordia minhas mãos de fome, me disseram: "Pai, nós sofreremos menos se comeres de nós. Tu nos vestisse com estas míseras carnes e tu podes tomá-las de volta!" Fiquei quieto para não me tornar mais triste. Durante esse dia, e o outro, ninguém falou nada. No quarto dia, Gaddo lamentou aos meus pés "Pai meu, por que não me ajudas?" e depois morreu. Depois eu os vi morrendo um a um, do quinto ao sexto dia, os outros três. Por mais dois dias, já cego, chorei sobre seus corpos mortos, até que no oitavo dia a morte me levou.
Quando terminou de falar, virou seu rosto para a sua vítima e voltou a atacar aquele crânio com os dentes, como um cão que não solta o seu osso. Ai Pisa, que vergonha és para a nossa Itália! Se o conde Ugolino era culpado de ter traído um dos castelos teus, nada justificava que seus filhos fossem torturados.
Seguimos adiante até o lugar onde o gelo maltrata de forma mais dura os pecadores. Com os rostos virados para cima, nem nos olhos a sua angustia encontra alívio, pois lá se forma uma barreira de gelo no primeiro choro, quando as lágrimas congelam e preenchem toda a cava do olho.
Embora o frio tivesse afastado toda a sensação do meu rosto, comecei a sentir uma leve brisa e perguntei ao mestre:
- Mestre, que vento é este? Pensei que vento algum poderia chegar a estas profundidades.
- Logo saberás - respondeu Virgílio - pois teus próprios olhos te darão a resposta.
Enquanto conversávamos, um dos desgraçados submersos no gelo nos ouviu e gritou:
- Ó réus tão cruéis que para vós foi imposta a pior das penas, tirai este gelo de meus olhos, e me livrai da dor que impregna meu coração, até que novas lágrimas selem meus olhos outra vez.
- Eu prometo te ajudar, mas diga primeiro quem és. - falei. - Se eu não cumprir o que prometi, que possa eu então chegar ao fundo desta geleira.
- Sou frei Alberigo. - disse o espírito. - aquele das frutas do mau horto, e aqui recebo tâmara por figo.
- Oh! - exclamei. - Então tu já estás morto?
- Pode até ser que meu corpo ainda esteja lá em cima, - respondeu - mas nenhuma ligação tenho mais com ele. Quando uma alma comete traição tão estúpida quanto a minha, o seu corpo lá na Terra é imediatamente possuído por um demônio que o governa até que chegue o seu dia. A alma que antes habitava o corpo cai aqui na Ptoloméia. Mas tu que chegas agora deves também conhecer esse aí do lado. Ele é ser Branca d'Oria e está aqui neste gelo há muito mais tempo do que eu.
- Creio que me enganas - disse eu -, pois que eu saiba, Branca d'Oria ainda vive. Ele come e bebe, dorme e veste roupas!
- É ele sim! - insistiu o frei Alberigo - Antes de Michel Zanche, sua vítima, chegar ao fosso guardado pelos Malebranche, ele já congelava neste lago. O seu corpo foi, na ocasião, recebido por um diabo, que provavelmente ainda o possui. Mas já falei o suficiente. Estende logo tua mão e livra-me os olhos!
Ele pediu, mas eu não obedeci. E foi cortesia minha ser-lhe vilão.
Ah genoveses! Vós que sois avessos a toda lei e adeptos da corrupção; por que o mundo não se livra de uma vez de vossa gente? Pois, fazendo companhia ao pior espírito da Romanha, vi um dos vossos, cujas obras eram tais que sua alma já congela no Cócito, mas seu corpo parece vivo e ainda caminha entre vós.

Espírito do Conde Ugolino - Ptoloméia
Espírito do Frei Alberigo
O pecador virou-se, afastou a boca daquela terrível refeição, limpou seus lábios nos cabelos do crânio que devorava, e falou:
- Queres que eu me recorde de um terrível pesadelo. Mas, se o que eu disser puder trazer uma infâmia maior a este traidor de quem arranco as peles, tu ouvirás o meu relato e o meu pranto. - e prosseguiu - Eu não sei o teu nome, nem de onde és, mas pareces florentino. Tu deves saber que eu fui o conde Ugolino, e que este outro é o arcebispo Ruggieri. Por causa de sua perversa astúcia, por confiar neste desgraçado eu fui traído, detido e morto, como vês. Mas antes saibas da forma cruel como fui morto para que possas julgar-me. Se o pensamento do que agora vou dizer não te tocar o coração, como tu és cruel! E, se não chorares, será que alguma vez choras? Eu fui preso com meus quatro filhos em uma cela para morrer de fome. Todos os dias meus filhos choramingavam e me pediam pão, e o pão nunca chegava. Eu ouvi o portão da torre lá embaixo ser lacrado com pregos e então olhei para as faces dos meus, e não lhes disse nada. Eu não chorei. Me transformei em pedra por dentro. Eles choravam e meu pequeno Anselminho falou "O que tens, meu pai, o que é que há?" Não respondi e nem uma só lágrima caiu durante todo o dia, nem durante toda a noite seguinte. Quando um raio de sol clareou aquele cárcere doloroso por um instante, me vi refletido nos quatro rostos, e mordi minhas mãos de desespero. E eles, pensando que eu mordia minhas mãos de fome, me disseram: "Pai, nós sofreremos menos se comeres de nós. Tu nos vestisse com estas míseras carnes e tu podes tomá-las de volta!" Fiquei quieto para não me tornar mais triste. Durante esse dia, e o outro, ninguém falou nada. No quarto dia, Gaddo lamentou aos meus pés "Pai meu, por que não me ajudas?" e depois morreu. Depois eu os vi morrendo um a um, do quinto ao sexto dia, os outros três. Por mais dois dias, já cego, chorei sobre seus corpos mortos, até que no oitavo dia a morte me levou.
Quando terminou de falar, virou seu rosto para a sua vítima e voltou a atacar aquele crânio com os dentes, como um cão que não solta o seu osso. Ai Pisa, que vergonha és para a nossa Itália! Se o conde Ugolino era culpado de ter traído um dos castelos teus, nada justificava que seus filhos fossem torturados.
Seguimos adiante até o lugar onde o gelo maltrata de forma mais dura os pecadores. Com os rostos virados para cima, nem nos olhos a sua angustia encontra alívio, pois lá se forma uma barreira de gelo no primeiro choro, quando as lágrimas congelam e preenchem toda a cava do olho.
Embora o frio tivesse afastado toda a sensação do meu rosto, comecei a sentir uma leve brisa e perguntei ao mestre:
- Mestre, que vento é este? Pensei que vento algum poderia chegar a estas profundidades.
- Logo saberás - respondeu Virgílio - pois teus próprios olhos te darão a resposta.
Enquanto conversávamos, um dos desgraçados submersos no gelo nos ouviu e gritou:
- Ó réus tão cruéis que para vós foi imposta a pior das penas, tirai este gelo de meus olhos, e me livrai da dor que impregna meu coração, até que novas lágrimas selem meus olhos outra vez.
- Eu prometo te ajudar, mas diga primeiro quem és. - falei. - Se eu não cumprir o que prometi, que possa eu então chegar ao fundo desta geleira.
- Sou frei Alberigo. - disse o espírito. - aquele das frutas do mau horto, e aqui recebo tâmara por figo.
- Oh! - exclamei. - Então tu já estás morto?
- Pode até ser que meu corpo ainda esteja lá em cima, - respondeu - mas nenhuma ligação tenho mais com ele. Quando uma alma comete traição tão estúpida quanto a minha, o seu corpo lá na Terra é imediatamente possuído por um demônio que o governa até que chegue o seu dia. A alma que antes habitava o corpo cai aqui na Ptoloméia. Mas tu que chegas agora deves também conhecer esse aí do lado. Ele é ser Branca d'Oria e está aqui neste gelo há muito mais tempo do que eu.
- Creio que me enganas - disse eu -, pois que eu saiba, Branca d'Oria ainda vive. Ele come e bebe, dorme e veste roupas!
- É ele sim! - insistiu o frei Alberigo - Antes de Michel Zanche, sua vítima, chegar ao fosso guardado pelos Malebranche, ele já congelava neste lago. O seu corpo foi, na ocasião, recebido por um diabo, que provavelmente ainda o possui. Mas já falei o suficiente. Estende logo tua mão e livra-me os olhos!
Ele pediu, mas eu não obedeci. E foi cortesia minha ser-lhe vilão.
Ah genoveses! Vós que sois avessos a toda lei e adeptos da corrupção; por que o mundo não se livra de uma vez de vossa gente? Pois, fazendo companhia ao pior espírito da Romanha, vi um dos vossos, cujas obras eram tais que sua alma já congela no Cócito, mas seu corpo parece vivo e ainda caminha entre vós. 

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