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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A humanidade adora bacon e lingüiça, mas deposita tudo o que é de ruim e nojento na reputação dos suínos. Será que esses espertos animais merecem ser tratados tão mal?

O porco passado a limpo

Sujo, imundo, grosseiro, torpe, imoral, obsceno, malfeito. Eis alguns dos sentidos que os principais dicionários atribuem à palavra “porco”. Então a humanidade odeia porcos? Nem tanto. Especialmente se falarmos de lingüiças, salames, presuntos e afins – neste ano, os rebanhos suínos do mundo inteiro devem ser transformados em 103,6 milhões de toneladas da carne favorita do planeta.
Enquanto isso, a imagem do animal vivo patina para sair da lama. Babe, o leitão-prodígio do cinema, ganhou a simpatia da audiência, mas ter um porco de estimação ainda é coisa para gente muito excêntrica – inclua nessa lista o superastro George Clooney. No meio acadêmico, os estudos concentram esforços na melhoria da produção de carne. O naturalista Lyall Watson, que passou a infância na companhia do javali-africano Hoover, é uma exceção: admirador sincero dos suínos, dedicou a eles o livro The Whole Hog – Exploring the Extraordinary Potential of Pigs (em tradução livre, “De Cabo a Rabo – Explorando o Potencial Extraordinário dos Porcos”, inédito no Brasil).
Na opinião do sul-africano Watson, o porco é tão vilipendiado quanto incompreendido. “A triste verdade é que sabemos muito pouco sobre porcos; e pouco do que pensamos que sabemos é verdadeiro.” A lama dos chiqueiros esconderia um animal dotado de inteligência notável – comparável à dos golfinhos, elefantes e grandes primatas. Anos-luz à frente de cabras, vacas e ovelhas. Um degrau acima dos cachorros.
Por falar nisso, Watson sustenta que caninos e suínos foram domesticados mais ou menos à mesma época, entre 12 mil e 10 mil anos atrás. Se o porco não é o melhor amigo do homem, pelo menos é um dos mais antigos. Mas que raio de amizade é essa, em que um dos camaradas quase sempre acaba na panela? Em primeiro lugar, há evidências arqueológicas de que o homem primitivo usava cães como alimento – e só parou ao descobrir que o porco é mais saboroso. Segundo, a associação com os humanos foi lucrativa para a espécie. A dinâmica da evolução não dá a mínima para o indivíduo: graças ao sacrifício de seus semelhantes, os porcos se espalharam por todos os continentes e hoje somam 1 bilhão no mundo inteiro.
A sociedade suína
Em The Whole Hog, Lyall Watson propõe uma definição bastante ampla de porco. Ela inclui os porcos domésticos, suínos selvagens como o javali e até mesmo a queixada e o cateto, animais das Américas que têm cara e focinho de porco, mas apresentam peculiaridades anatômicas que os colocam em outra família, os taiassuídeos. Em comum, todas essas espécies desenvolveram estruturas sociais complexas e sistemas de comunicação engenhosos.
O porco carrega a fama de ser sujo e fedorento. Não é bem assim. “Eles usam a lama para reduzir a temperatura corporal”, diz a engenheira agrônoma Jacinta Ferrugem Gomes, da USP, especialista em suínos. Descendente do javali eurásico, o porco doméstico se sente à vontade em temperaturas entre 16 e 20 graus Celsius. Acima dos 25 graus, o calor fica insuportável para o bicho, que, para piorar, não tem glândulas de suor. Nessa situação, qualquer um mergulharia de trampolim numa piscina de lama – embora os suínos dêem preferência a tocas cavadas no solo quando estão em condições selvagens.
Até para usar o banheiro o porco tem suas inibições. “Eles defecam somente em alguns lugares, estabelecem ‘latrinas’ em pontos consensuais, mesmo em ambientes severamente limitados”, diz Lyall. Isso pode ser verificado em criações comerciais. “Construímos as baias respeitando o comportamento do animal: o comedouro fica sempre do lado oposto ao do local de defecar e urinar”, afirma Jacinta. Se alguns chiqueiros são imundos, é porque os homens os mantêm assim.
E os cheiros? Eles são essenciais na comunicação entre os suínos, que os produzem aos montes. Cada animal possui, espalhadas pelo corpo, nove glândulas que secretam substâncias odoríferas fundamentais para a coesão do grupo. “Membros do mesmo bando, que compartilham muitos dos mesmos genes, acabam por ter um tipo de ‘odor de colméia’, algo que permite a membros de uma vara reconhecer uns aos outros em um nível inconsciente”, afirma Watson. São códigos que nós não temos a capacidade de decifrar – talvez porcos achem repulsivo o aroma do Chanel n° 5.
Uma vara de porcos -– domésticos ou selvagens – deixa suas marcas cheirosas por onde quer que passe. Além do mais, suínos não são particularmente silenciosos. Tudo isso, em tese, ajuda os predadores, pois faz da localização dos animais uma tarefa fácil. Mas o benefício de manter o grupo unido acaba por ser maior que o custo. Estar no meio da multidão sempre aumenta as chances de sobrevivência. Há também aqueles que contra-atacam, como as queixadas da América do Sul. Essas criaturas vivem em bandos de até 200 indivíduos equipados com dentes fortes o bastante para quebrar castanhas-do-pará. Quando acuadas por jaguatiricas, onças ou humanos, as queixadas põem-se em formação circular e fazem um “arrastão” contra o predador -– que pode se dar muito mal caso não consiga fugir.
Porcos domésticos não costumam ser tão agressivos, mas têm lá seus rompantes de delinqüência. Como conseguem delimitar um círculo social de até 30 animais, entram em parafuso em grupos grandes demais. “Eles começam a formar subgrupos e adotar um comportamento de gangues, em que um bando hostiliza o outro”, diz Jacinta. A hierarquia da sociedade suína é linear: há um indivíduo dominante, um segundo mais poderoso e assim até chegar àquele que não apita nada. No topo da sociedade, alguns machos constituem haréns com dez “esposas”, em média. Os outros aguardam a vez de desafiar os machões do pedaço e conquistar seu próprio mulherio. Ou não: “Machos subjugados por todos os outros podem passar a agir como fêmeas”, diz Jacinta. “Mas o homossexualismo é mais comum em fêmeas com tendência dominante.”
Javalins no quintal
O homem pré-histórico não domesticou porcos, mas javalis. Os dois animais pertencem à mesma espécie, a Sus scrofa (o porco caseiro é a subespécie Sus scrofa domesticus) e podem cruzar entre si. Todos os porcos são descendentes de javalis eurásicos e guardam sua herança genética. De acordo com Lyall, a transformação se deveu a dois fatores. Um deles foi a seleção feita por criadores, que priorizavam animais com características como orelhas caídas (geralmente mais dóceis – os ferozes javalis têm orelhas em pé) e facilidade de ganhar peso. O outro fator teria sido a adaptação do próprio javali ao confinamento: com comida abundante, não há por que brigar por alimentos – assim foram diminuindo tanto os dentes quanto o instinto de usá-los contra alguém. No mais, a cabeça encolheu, as pernas ficaram mais curtas e a pelagem praticamente sumiu.
Acontece que, se você deixar porcos abandonados à própria sorte, eles começam a se comportar como seus ancestrais – e a parecer com eles. “Em algum lugar de seus genes, eles guardam as instruções básicas necessárias para se tornarem novamente animais selvagens e livres, com pêlos eriçados e um comportamento muito mau”, afirma Lyall. Quanto demora a metamorfose? Uma geração é o suficiente: leitões subnutridos tendem a desenvolver cabeças maiores que as de seus pais.
O que chamou os javalis para perto dos humanos foi a nossa comida. E também a bebida. Em alguns sítios arqueológicos da Idade da Pedra foram encontradas pedras aparentemente usadas para moer grãos, mas nada parecido com um forno. Supõe-se, então, que nossos antepassados descobriram o prazer da cerveja antes mesmo de aprender a fazer pão. “Os subprodutos da fabricação de cerveja devem ter sido muito atraentes para os porcos, é algo que eles podem farejar a quilômetros de distância”, diz Lyall. É possível que, àquela altura, o homem primitivo já tivesse duas boas desculpas para largar mão da vida de nômade: cerveja e um companheiro de copo – o porco, já que cães não têm o mínimo interesse por produtos fermentados.
As criações de suínos passaram a fazer parte da paisagem dos assentamentos humanos, da China à Mesopotâmia e à Grécia. Em algumas civilizações, eram considerados divindades. Em outras, porém, foram rotulados como impuros. Esses tabus contra os porcos persistem até hoje entre judeus e muçulmanos. Para Lyall, o fato de essas religiões terem sido forjadas no Oriente Médio tem tudo a ver com a rejeição aos suínos. Porcos comem basicamente os mesmos alimentos que nós – e não grama, como fazem cabras e ovelhas. Em áreas desérticas, seria economicamente inviável manter animais que disputam com o homem a pouca comida disponível, com o agravante de que porcas não produzem mais leite do que o suficiente para amamentar seus filhotes. Além disso, os primeiros judeus e muçulmanos eram tribos de pastores em um mundo onde era essencial manter a identidade de grupo – assim, a abstenção de carne suína também funcionava como um modo de diferenciar esses povos dos agricultores comedores de porco.
Em ambientes menos hostis, porcos garantiam a subsistência dos menos afortunados. Na Europa medieval, eles eram a única fonte de carne vermelha ao alcance de um homem pobre – a banha também tinha seu valor num tempo em que óleos vegetais eram uma coisa bastante rara. Esses animais eram criados nos quintais das casas, sendo alimentados com restos de comida e excrementos humanos. A figura do porco caseiro resistiu até meados do século 20, mas só nas áreas rurais. Nas cidades grandes, eles desapareceram um século antes, mas não sem a resistência da população. “Porcos foram encontrados até mesmo dentro das casas, sob as camas”, escreveu o filósofo alemão Friedrich Engels sobre Londres em 1845, quando as autoridades locais decidiram que, pelo bem da atmosfera britânica, moradias humanas não deveriam ser também chiqueiros. Os animais eram atirados às ruas. Para imaginar como a cidade ficou após a “dessuinização” dos lares, pense numa horda de porcos famintos revirando o lixo em frente ao Big Ben.
O continente americano conheceu seus primeiros suínos verdadeiros na segunda expedição de Cristóvão Colombo às “Índias Ocidentais”, em 1493. Outros navegadores também desembarcavam por aqui os porcos que sobreviviam ao cozinheiro do navio. Esses animais curiosos não demoraram a se embrenhar nas matas e regredir ao estado selvagem. O resultado é que hoje, além dos taiassuídeos como o cateto e a queixada, as Américas abrigam suas próprias variedades de porcos-do-mato.
Foi graças ao Novo Mundo que a criação de suínos sofreu uma revolução: a descoberta do milho americano como ração permitiu a manutenção de rebanhos de tamanhos antes impensáveis. Os colonos do Meio-Oeste dos Estados Unidos perceberam que seus animais amaram a nova dieta, que tinha a vantagem de engordar os porcos como nenhum outro alimento. O Corn Belt, cinturão de milharais que ocupa uma imensidão no coração da América do Norte, só existe porque os americanos adoram bacon no café da manhã – e um pouco de sucrilhos.
Um animal especial
“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.” Porcos foram os animais escolhidos pelo escritor inglês George Orwell para tomar o poder na fazenda do livro A Revolução dos Bichos, de 1946. Napoleão e Bola de Neve, a dupla suína de tiranos, era claramente inspirada nos líderes da Revolução Soviética – mas, na visão do naturalista Lyall, a opção de Orwell por esse animal não ocorreu ao acaso. Para ele, porcos são realmente mais iguais que os outros bichos.
“Sob o zoomorfismo da história que sustenta sua proposta ideológica, Orwell exibe um conhecimento preciso do design biológico”, diz Watson. De fato, entre os animais de uma fazenda, suínos seriam mais elegíveis ao posto de líder que, digamos, ovelhas ou galinhas. Mas, para azar deles, sua esperteza é um tanto difícil de ser exibida.
O porco leva uma enorme desvantagem em relação ao gorila e ao chimpanzé, animais mais comumente associados à noção de inteligência: não possui patas capazes de manipular objetos ou criar instrumentos. Para explorar o mundo, ele se vale de seu focinho, que está longe de ter o tamanho e a diversidade de movimentos da tromba do elefante. Suínos também carecem da agilidade e da rica expressão corporal do golfinho. Porcos são animais presos a um corpo muito pouco especializado.
Por isso, precisam se adaptar para aproveitar ao máximo o ambiente. A chave da inteligência suína, segundo Watson, é o hábito de comer de tudo. “Onívoros nunca param de investigar e estão sempre à procura de qualquer coisa que possa lhes trazer alguma vantagem.” Essa curiosidade requer uma memória espacial desenvolvida: porcos são aparelhados não só para localizar fontes de alimentos, mas também para achá-las novamente depois de longos intervalos.
Porcos brincam entre si, mesmo quando adultos. “Alguns animais, nos momentos de tédio aparente, começam a correr atrás dos outros, simulando brigas”, afirma a bióloga Cibele Biondo, da USP, que estuda o comportamento dos catetos. A engenheira agrônoma Jacinta, que trabalha com porcos domésticos, também observa esse comportamento: “Eles ‘jogam bola’ e são capazes de usar um pneu pendurado no teto como balanço”. Para Lyall, as brincadeiras são pré-requisitos para aquisição de uma série de habilidades sociais. “Brincar parece ser uma atividade necessária para o cérebro saudável – tanto de porcos quanto de humanos”, diz.
E às vezes o cérebro do porco pode nos dar rasteiras. Em 1914, o psicólogo Robert Yerkes, da Universidade Yale (em Connecticut, Estados Unidos), submeteu diversos animais – incluindo porcos e humanos – a um teste de memorização de padrões em que uma recompensa era escondida em diferentes compartimentos a cada vez. Os suínos foram excepcionalmente bem na prova, matando a charada mais rapidamente que muitos dos voluntários humanos.
Não, porcos não são mais inteligentes que nós. Mas um olhar atento pode revelar similaridades assombrosas entre as duas espécies. “Se queres conhecer teu corpo, mata um porco”, diz um provérbio português. As semelhanças anatômicas estão no trato digestivo, nos dentes, no fígado, no coração. Porcos também são suscetíveis a algumas das mesmas doenças que acometem os humanos – como câncer, reumatismo e artrite –, além de responder da mesma forma a muitos medicamentos. Por isso, eles se destacam entre as cobaias nas pesquisas médicas de transplantes ou de novas drogas.
A humanidade encara o porco como um bicho que está aí para nos servir. Milhões deles são sacrificados o tempo todo, seja para nos prover alimento, seja para salvar as vidas de nossos doentes. É perturbador perceber que esse animal tem muitas coisas em comum conosco – e enxergar que já houve vida inteligente nos pertences de uma feijoada.

O incrível universo suíno

O que Tio Sam, WallStreet e a bomba atômica têmem comum? Porcos!
FARO PRECIOSO
Porcos – porcas, aliás – são exímios localizadores de trufas, fungos subterrâneos cujo quilo chega a 2 200 dólares no mercado de comidas finas. Essas criaturas desenvolveram uma curiosa associação com os suínos: produzem uma substância idêntica à que os porcos machos exalam na época do acasalamento. Quando uma fêmea no cio passa sobre a trufa, pensa que há um parceiro sexual sob a terra e põe-se a cavar. O fungo é desenterrado e dispersa seus esporos antes de acabar na cozinha de um restaurante estrelado
SOPROU E COMEU
Nas primeiras versões da fábula Os Três Porquinhos, Heitor e Cícero são devorados pelo Lobo Mau. O refúgio na casa de tijolos do porco Prático só surgiu mais tarde, por revisionistas que achavam a história violenta demais para crianças
ECONOMIA SUÍNA
A invenção do cofre em forma de porquinho é atribuída ao engenheiro Sebastian la Pestre, que viveu na França do século 17. Ele calculou que, em dez anos, um porco pode produzir 6 milhões de descendentes – e decidiu que não havia modelo melhor para ensinar uma criança a juntar dinheiro
O FUGITIVO
Em 2002, um porco de 115 quilos fugiu do “corredor da morte” ao escalar e pular do muro de 1,80 metro que cercava um abatedouro na Escócia. A polícia local o capturou em uma floresta após dois dias de perseguição. O animal foi adotado por um fazendeiro, teve a vida poupada e recebeu o apelido de McQueen, homenagem ao ator Steve McQueen, astro do filme de prisão A Grande Fuga
PORCA NUCLEAR
Outro fugitivo famoso foi uma leitoa chamada Pig 311. Ela saltou de um navio no mar próximo às ilhas Marshall, no oceano Pacífico, nadou vários quilômetros até a praia e passou o resto da vida no zôo de Washington, Estados Unidos. Tornou-se um animal de 272 quilos, normal em tudo, exceto por um detalhe: era estéril. Especula-se que isso se deva ao fato de ela ter feito uma escala no atol de Bikini no exato momento em que os americanos testavam uma bomba nuclear
BOLSA DE LEITÕES
Wall Street (“rua do Muro”), centro financeiro de Nova York, deve seu nome a uma paliçada que separava as fazendas de porcos do centro urbano da ilha de Manhattan no século 17
SAM, O PORQUEIRO
O personagem Tio Sam, símbolo dos Estados Unidos, foi inspirado no empresário Sam Wilson, que enviava carne de porco salgada às tropas americanas na guerra de 1812 contra a Inglaterra. Cartunistas da época o desenhavam de cartola em um cartaz que dizia “Tio Sam está alimentando o exército”

O porco em números

A matemática suínana história, na geografiae até na astronomia
• Uma corda feita com todas as lingüiças e salsichas produzidas no planeta em um ano seria longa o suficiente para ir 3 vezes da Terra à Lua e voltar
• No Brasil, há um porco para cada 5 habitantes
• 1 bilhão é a população global de suínos
• A Dinamarca é campeã mundial em consumo de carne suína: cada cidadão consome em média 77 quilos por ano
• 48 leitões diferentes foram usados para “interpretar” o papel principal do filme Babe, o Porquinho Atrapalhado
• Em Londres, no século 19, havia 5 porcos para cada habitante
• 20 mil dólares é o preço que um porco de estimação da raça potbelly pode custar
• Morto e desmembrado, um porco se divide em: 18% de pernil, 16% de toucinho, 15% de lombo, 12% de copa-lombo, 10% de banha, 3% de costelinhas e 26% de outros cortes


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